Xamanismo

 

 

A PATA DE JAGUAR
Dedicado a todos os Jaguares.

Conta, um Velho Xamã, que nas diversas Tribos espalhadas por este Planeta, desde tempos, remotos, que os Xamãs utilizam as mais variadas vestimentas e indumentárias ritualísticas. Inúmeros tipos e modelos de chapéus, capacetes, roupões dos mais diferentes aspectos lembrando animais, adornos variados, peças de metal (escudos, brasões, anéis), enfim, a multiplicidade e variação, é enorme. Conta, no entanto, o Velho, que houve uma classe de Xamãs que se notabilizou por apenas um adorno, qual seja, um lenço vermelho amarrado no braço esquerdo, conhecido como Pata de Jaguar. Esses Xamãs usavam suas roupas naturalmente, de acordo com os usos e costumes de suas Tribos, porém, quando iam realizar seus “trabalhos” e “rituais” xamânicos, colocavam a sua Pata de Jaguar. Essa indumentária, como todas elas, tem a força de distinguir o Xamã dos outros membros, facilitando aos espíritos reconhecê-los e respeitá-los de imediato; aos membros da Tribo, no ritual, saberem pra quem apelar e orar. Por ser vermelho o lenço, a Pata de Jaguar é um distintivo de coragem e determinação, força e persistência. Também, a Pata de Jaguar tem um papel de grande importância na proteção ao Xamã, agindo como um poderoso “amuleto” contra intrusões, ofensas e outros malefícios. Faz, também, a Pata de Jaguar o papel de antena espiritual, auxiliando o Xamã em suas jornadas mísiticas e, em muitos casos, é a propulsora do transe místico. Do mesmo modo, atua com forte empoderamento espiritual ao Xamã, ajudando-o na sua mobilidade e sua atuação de auxílio aos necessitados e conseqüente cura. É, ainda, a Pata de Jaguar, um elo purificador, tanto do Xamã, quanto dos demais participantes dos rituais. Por simples, discreta e vermelha, é reconhecida universal e eternamente. Conta, ainda, o Velho Xamã, que o Grande Espírito, intencionando melhorar seus contatos e comunicações com os Homens (já que estes haviam perdido seu dom natural de chegar à Divindade), chamou alguns de seus Animais e determinou-lhes a Tarefa de encontrarem Homens que pudessem reatar as relações com o Grande Pai Celestial. Assim foi que o Grande Jaguar foi chamado ao Alto da Montanha, em local Sagrado, solo de perpetuação da estupenda Árvore Sagrada da Vida. Foi determinado ao Jaguar que raspasse o Tronco Sagrado da Grande Árvore da Vida e transportasse aquele Contágio Divino em suas garras e encontrasse Homens suficientes e determinados a serem tocados e contagiados por aquela Bençao Celeste, trazida pela Fera. Muito teve que andar o Grande Jaguar e muitos Homens encontrou que fugiam ou atacavam-no; até que, após muito andar e ter perdido quase toda a Raspa Sagrada, tendo sobrado apenas em uma de suas garras, o Jaguar encontrou um grupo de três Homens, em plena Floresta, sentados na relva, e nada fizeram contra o Jaguar. Então a Fera concluiu que podia realizar sua Tarefa; rodeou aqueles Homens que nada fizeram, inertes; o Jaguar escolheu um deles e, com a única garra que ainda possuía a Raspa, feriu-lhe o braço em Contágio Divinal; o Homem escolhido, ao perceber que o Jaguar havia saído embora, amarrou uma tira de pano no ferimento, tira esta que logo ficou ensopada de vermelho sangue. Os outros comemoraram em êxtase o “nascimento” do primeiro Xamã daquela Tribo. Mesmo após a cicatrização o Xamã manteve o lenço vermelho em sinal de Agradecimento, sendo a sua única roupa xamânica. Dessa forma, esse Contágio Divino foi, espiritualmente, concretizado na Sabedoria Ancestral desse Xamã e dos demais, Iniciados, geração-pós-geração. Conta, ainda, que esse Toque Divino foi essencial aos Homens na Terra, através das curas, auxílios, apelos, misericórdia, já que a Sabedoria andou pelo Novo Mundo, e muitos Xamãs Iniciados nos mistérios do vôo extático podiam suplicar diretamente ao Grande Espírito e recebiam todas as dádivas e graças celestiais. Por isso, o Jaguar é o Rei Crístico, pois tem acesso e transfere a Graça Divina. Conseqüentemente, a Pata de Jaguar é e traz essa Força Divina, essa Fé Imantizada, o Poder da Cura, o Contágio de Deus, a eterna lembrança desse Animal Sagrado, embutida em cada Xamã por Ele apadrinhado. Conta, por fim, o Velho Xamã que em razão da tragédia histórica sofrida pelas Tribos Ancestrais, com a chegada do Homem Branco, a Sabedoria Xamânica foi dizimada, perdida, incluindo a dos Xamãs da Pata de Jaguar. Que, apenas por vontade e caridade de alguns desses Xamãs, reencarnados, hoje seria possível receber deles a Iniciação, mas é fato raríssimo de acontecer. Sabe-se que, por ser um Elo Divino, a Pata de Jaguar, com toda a Sabedoria Ancestral que representa e carrega em si, é inteiramente ativa e acessível – está sempre viva, disponível. Se, porventura, novas hordas de Xamãs da Pata de Jaguar, começarem a circular pelos rituais é para serem tratados com o maior respeito e honra, pois com eles estão as Virtudes Crísticas da Humildade, da Caridade e do Amor. Abençoados sejam! Aho! Marre! Ire Tacata!

Caly Junqueira.

Nota: Mircea Eliade: “Xamã é o “medicine man”, pajé curandeiro, feiticeiro, mago, bruxo; faz a viagem mística para comunicar-se com as Divindades. Sanpoils e Neepelens: tribos do oeste dos Estados Unidos em que a única indumentária dos Xamãs se resumia num lenço vermelho amarrado no braço esquerdo”.