Capitulo V

 

 

UM OÁSIS NA TERRA


Quando eu nasci, a Fazenda Rio Claro já era há muito o grande pólo de encontro da Família; existem fotos da minha Mãe, ainda criança, na Fazenda; ela cresceu freqüentando a Rio Claro e nós, eu e meus Irmãos, também fomos privilegiados com essa graça. O Tio Hugo e a Tia Lena tinham o dom altruísta de receber os familiares nas férias escolares do fim e início de ano e no meio do ano também; tinham herdado a Fazenda do Vô Lulo e da Vó Cissa, sendo a última propriedade da Família, restante dos áureos tempos.

A Fazenda está localizada no Município de Cruzeiro/Lavrinhas/SP, na estrada que era o antigo caminho entre Rio-São Paulo. Casarão antigo, assobradado, feito em taipa de meio metro de largura (paredes), assoalhado, com grandes salas, diversos quartos, paredes internas pintadas à mão por artista português retratando Camões e as Quatro Ninfas das Estações (muito belas as pinturas, enormes). A produção principal era o leite, mas também a Fazenda viveu o auge do café, sendo muito bonitas as construções do enorme terreiro de secagem, a piscina e ralo para a limpeza dos grãos, tudo em pedras.

Tudo isso estava inserido no pé da Serra da Mantiqueira, por onde corria o belo Rio Claro, de águas cristalinas e suas pedras roliças, ótimo para o lazer e mergulhos deliciosos. Cavalos para passeios mais longos, pomar, Vendinha por perto, Fazenda Palmeiras dos Tios Bio e Salô ali do lado, enfim, um pacote de maravilhas que denotava o oásis na Terra.

Tudo isso não seria tão bom se eu não encontrasse as pessoas que encontrei, maravilhosas! Até meus Irmãos eram outras pessoas lá no Rio Claro, e nosso laço de amizade só aumentou naquelas temporadas. O Tio Hugo era primo-irmão da minha Mãe; quando ele era jovem estudou em Guará, morando na casa de meus Avós José Carapina e Olívia, tendo, portanto, laços muito fortes de respeito, amizade e parentesco.

Foi justamente neste Local Sagrado, a bela Fazenda Rio Claro que eu tive meus melhores e mais instrutivos contatos com a Mãe Terrena e sua Natureza esplêndida. Conhecimentos antigos sendo passados dos mais idosos aos mais novos, de forma tranqüila, no dia-a-dia, nos afazeres. Sentimentos que foram aclarados e lapidados no contato próximo de pessoas especiais e da Natureza que se manifestava integral.

A relação muito forte com as águas: no Rio em banhos deliciosos; na Nascente, para matar a sede; nas cachoeiras, para buscar a pureza cristalina; enfim, na chuva, que garantia a fartura de alimentos a todos. A relação muito forte com o fogo do fogão à lenha, onde eram preparadas as refeições deliciosas. O completo laço com a Terra, desde a percepção dos limites das propriedades, à elevação da Montanha, até o cuidado com as plantas, o pomar, as plantações maiores, o pasto, a Floresta. Um pouco de tudo íamos pescando aqui e ali, nas conversas com os Tios e os Primos – cada um sabia um tanto e passava adiante.

A outra forte relação que tínhamos com o Céu, no Sol que nos aquecia, na Lua e suas fases, em especial a Cheia; nas Estrelas, Constelações e Cadentes. Ficávamos madrugadas e mais madrugadas observando as noites estreladas – tocávamos o violão e dávamos risadas com estórias, causos e piadas.

Não poderia deixar de relatar sobre os animais, em especial os Cavalos, já que todas as manhãs possíveis, lá no Rio Claro, eu fazia passeios em montaria e adorava essas cavalgadas. Desde pegar o Cavalo até o momento de soltá-lo era um ritual magnífico pra mim. Saía pra todo lado; conhecia um lugar aqui outro acolá; ia nadar em outros poços do Rio; ajudava buscar alguma vaca ou outro cavalo; enfim, cavalgar era uma das principais atividades que eu praticava e adorava. Em mim, como se eu relembrasse dessa atividade que tocava meu Espírito, minha Alma – o Tio falava que tava no sangue, eu sentia que era além. Mais tarde descobri que o Cavalo é meu “Animal de Poder”, tão relatado nos ensinamentos xamânicos, o nosso “Anjo da Guarda”.

Lembro-me também que eu sempre usava chapéu na Fazenda, até que um dia, ao retornar pra Cidade não o tirei da cabeça e todos diziam que eu era muito criança pra usar chapéu, mas não teve jeito – o hábito ficou e virou marca registrada do Caly Caly.

Além das férias, em que íamos todos, em algumas ocasiões fui acampar no Rio Claro; inclusive o meu primeiro acampamento foi lá, também. Mas me lembro de uma vez que fui acampar com o amigo Sílvio e estava muito frio. Lembro-me de dois episódios marcantes relacionados com minha mediunidade: um foi um Espírito de Luz que ficou todos os dias vigiando-nos, bem em cima da grande Árvore, onde armamos nossa barraca, próximo do Rio. Era um verdadeiro “Anjo da Guarda” a nos observar lá do alto dos galhos – via-o tanto de dia quanto de noite.

O outro acontecido foi que numa das noites de muito frio, eu não conseguia dormir, Sílvio também sentia muito frio. Calculamos mal os agasalhos e cobertas e pagamos por isso. Levantei, passei meu cobertor pra ele e saí andando com uma Lua Cheia muito bonita e que iluminava tudo. Eu conhecia muito aqueles caminhos e rumei em direção à Casa Sede, com destino mais preciso de ir até a Mina d’água encher o cantil pra fazer um chá, “mode” esquentar a noite.

Numa pequena estrada tive a surpresa de ter minha visão mediúnica aberta e num instante eu estava num corredor de negros escravos não muito contentes com minha presença. Aqueles espíritos ainda pareciam sofrer com a escravidão e eu sabia que na Fazenda Rio Claro havia sido explorada esse tipo de mão-de-obra, pelos antigos proprietários. No momento em que me vi no início daquele “corredor polonês”, pensei que ia levar uma surra de vingança daqueles espíritos, no entanto, talvez em razão do meu “Anjo da Guarda”, firmei pensamento de Fé de que eu não tinha nada a ver com a escravidão pela qual eles haviam passado, eu era isento de culpa e meus ancestrais diretos também foram ferrenhos abolicionistas; não havia motivos para que eles praticassem alguma vingança em mim e que abrissem o “corredor” para que eu passasse em paz e que eles em paz retornassem ao lugar de onde vieram.

Assim, driblei certo receio interior, ergui a cabeça e fui adiante com o corredor de espíritos sendo dissipado à medida que eu avançava, com cada alma voando nas duas laterais. Rezei muito, agradecendo aos Anjos da Guarda (meu que lá estava e deles que deve ter ajudado). O frio sumiu, peguei água na nascente e tomamos o chá na fogueira que reativei, contando ao Sílvio as visões. Nessa época eu tinha uns 20 anos, já havia estudado um pouco sobre o assunto e até mesmo já havia tido algumas outras rápidas “visões” e “audições”; mas quando ocorre um fato assim marcante põe-nos a pensar! Eu sabia que mediunidade é um dom espiritual, mas como eu não tinha desenvolvido conhecimento e técnica, achei que não iria ocorrer comigo.

Ainda bem que o conhecimento adquirido em leituras e conversas com amigos sobre a experiência mediúnica me deixaram calmo naquela hora. É bem verdade que na Fazenda sempre rolaram aquelas estórias de assombrações, mas naquela noite, pra mim, o assunto ficou bem mais sério e sem rodeios – tudo foi bem definido, eu vi o mundo espiritual e pude “segurar a onda” (com a graça de Deus e Nossa Senhora).

Certo ficou o que o Chico Xavier tinha dito pra mim quando eu era criança, dizendo, ao me abençoar, que eu possuía grande mediunidade (isso ocorreu na década de 70, quando Chico Xavier parou em Lorena e recebeu pessoas num Centro Espírita; fui levado por um amigo da Família).

Mediunidade pra mim ficou definida como acesso a planos espirituais, pela visão ou audição, um oásis do Espírito; como eu não tinha técnicas e conhecimento, essas visões e audições ocorriam aleatoriamente, de tempos em tempos. Essa do Rio Claro me marcou e me trouxe maturidade.

Tantas histórias da Fazenda que seria necessário um volume especial para relatá-las; não é aqui, pois o propósito agora é outra vertente, ligada à busca essencial do Ser; mas é certo que tudo devo a todos aqueles que viveram os momentos maravilhosos, onde me estruturei como Ser Humano – eu agradeço!