O Peixe Dourado

 

 

(O primeiro ritual)


Os relatos que faço neste Capítulo e em outros com o mesmo título de Montanha Sagrada/Vivências da Luz são extremamente pessoais, não indicando caminhos para quem quer que seja, bem como não servindo de fórmula única para a Iluminação Espiritual, ainda que eu sem medo possa recomendar a todos.

São relatos por mim considerados degraus ou patamares da Evolução Espiritual que me propus a galgar; como em todos os momentos de minha vida atual, esses passos podem apenas servir de “elementos comparativos”, situando essas experiências com a de outras pessoas, para se verificar as extensas possibilidades do Espírito, abertas a todos os seres.

São relatos de fortes experiências espirituais, essencialmente xamânicas, posto que baseados na Bebida Sagrada da Ayahuasca, de Sabedoria Indígena Ancestral. Muitas dessas experiências, que são conhecidas como Vôo Místico ou Transcendental, nem mesmo poderão ser relatadas, uma vez que, tão impressionantes, não encontram palavras suficientes para serem externadas e ficarão guardadas na memória mais profunda, os “Registros Akásticos” (memória da Alma).

Farei o possível para descrever esses momentos, tão maravilhosos e que completaram minha vida com tudo aquilo que o mundo urbano (e profano) não consegue trazer, mas o Mundo Sagrado traz e satisfaz. Por isso chamei esses capítulos de “Vivências da Luz”/”Montanha Sagrada”, e vou numa seqüência, uma vez que todas essas experiências, vivas e reais, são de fato a verdadeira Luz, o verdadeiro Mundo em que eternamente vivemos e somos parte.

Esclareço que esses processos e experiências foram acompanhados de perto por pessoas de conhecimento no assunto, e outros instrutores iniciados na prática. Esclareço que escolhi este Caminho por livre e espontânea vontade, para alçar patamares espirituais mais elevados, posto que as mudanças que já havia feito em minha vida davam-me sustentação suficiente para novos rumos.

Encontrava-me já na Casa de Pedra das Montanhas, a “Calyoca”, vivendo uma realidade bem diferente da Cidade, totalmente integrado na Natureza, absorvido pela exuberância da Mãe Terrena e trilhando a Senda que o Vishnu e os Mestres me indicaram.

No alto dos 46 anos de idade, com toda a bagagem da Advocacia (alegórica Grande Guerra), enfim, já era hora de buscar mais; não que seja necessário isso ou aquilo para iniciar o Caminho Espiritual na Ayahuasca, mas no meu caso, o Portal estava à minha espera, dependia só de mim – e eu fui! Na verdade, meu Caminho Espiritual era bem andado e o aperfeiçoamento estava sendo exigido; aderi à idéia e me lancei.

A Grande Montanha da Mãe Terrena já me acolhia, me dava licença e, com minha determinação, a despeito de toda renúncia e sacrifício, cheguei lá, como dizem os aventureiros; assim, só faltava enfrentar a Grande Montanha Sagrada do Pai Celestial, a Montanha Espiritual, xamânica por assim dizer, posto que exigiria novas mudanças, as Espirituais, da Alma, da Consciência.

Já purificado pela leveza dos ventos, pelas águas cristalinas, pelo verde da floresta, faltava ainda a Purificação da Alma, a Expansão da Consciência, os caminhos íngremes da Evolução Eterna (a Eterna Aliança).

Aceitei, desta vez, mais um convite da Namorada e um Amigo, que estavam em Casa naquele dia; preparávamos o almoço, num sábado, dia de Ritual no Centro em Guará. Eu estava arrumando, conversando, até que ao assentarmos à mesa, me fizeram o convite de participar do Ritual de Ayahuasca juntos, naquele dia. Topei ir, mas alertei que não tinha me preparado muito. Nessa época, além da cachaça, eu fumava cigarro de palha – dois vícios muito antigos, como eu já havia falado.

Arrumamos tudo na Casa e no final da tarde partimos ao Centro de Rituais. Todas as dicas me foram sendo passadas por eles e eu ouvia com atenção; já haviam feito outros convites, mas pela primeira vez eu estava indo – eles estavam muito contentes por isso. Chegamos ao local, eu estava muito tranqüilo e já agradecia com orações, pelo fato de estar naquele Ritual; sensitivo, já notava as energias espirituais muito sintonizadas. Fomos separados todos, ficando as mulheres no Templo e os homens na varanda da Casa.

Iniciados os trabalhos, recebemos diversas orientações da Madrinha e Padrinhos presentes, além de sermos apresentados aos Fiscais que nos cuidavam. As cadeiras, com braços para apoio, nos davam uma posição estável de conforto. Comungamos o “Vinho Sagrado”, também conhecido como “Daime”, “Santo Daime”, “Hoasca”, “Vegetal”, ou Ayahuasca. Permanecemos todos sentados e nos foi orientado para meditarmos de olhos fechados e ouvíssemos as músicas que eram diversificadas – procedi conforme as orientações e as dicas dos Amigos.

Meu Trabalho ou “Força” (como é chamada a Viagem Mística, ou Êxtase, ou Transe) demorou um pouco para iniciar. De fato, a Ayahuasca não tem um sabor agradável, mas é forte em substância e logo produz seus efeitos. E, de fato, seu efeito mais evidente, em resumo, é mesmo a Expansão da Consciência. É algo muito diferente das drogas/bebida alcoólica, porque não entorpece, mas fragiliza os sentidos, o equilíbrio corporal. No entanto, quando necessitamos, podemos caminhar até o banheiro, com relativa firmeza.

Ao beber o “Chá Milagroso”, tive a sensação de que já o conhecia, como já tivesse tido contato antes daquele momento, mas foi só uma sensação. Entrei em meditação e, depois de uns 30 ou 40 minutos, comecei a ter as chamadas “mirações”, que são visões variadas de tetos invertidos, hologramas, geometrias, arabescos, planos distorcidos, objetos disformes, luzes, olhos e cores variados, enfim, múltiplas formas parecidas com os quadros do Salvador Dalí (aproximadamente).

Essas “mirações”, no meu modo de ver, são como a representação da transição entre o profano mundo material e o sagrado mundo espiritual. É como se o efeito da Ayahuasca transformasse todo o mundo exterior a nós, o território do “ego”, o mundo material, tudo se transforma em imagem que se abre na testa da gente, como se o “Terceiro Olho” abrisse e observasse de outra forma o mundo material; como dizem alguns, “ a última fronteira do Humano”, ou a última cortina, o Véu de Maya (a ilusão)!

Essa visão já é parte do processo principal da Ayahuasca (que é a Expansão da Consciência). Abrem-se, com a ingestão dessa “Bebida Sagrada”, a clarividência e a clariaudiência. É muito diferente das alucinações que ocorrem com as drogas porque não há, como disse, o entorpecimento; outra prova da diferença, é que ocorre de várias pessoas observarem e terem contato com Entidades de Luz iguais, as mesmas, num mesmo Ritual, num mesmo instante.

Com as mirações, me entreguei mais à minha concentração/meditação e, num instante, a “Força” me tomou por completo e passei a observar um lugar muito bonito, uma espécie de pasto num campo muito vibrante de Luz Dourada. A mesma “visão transcendental” ou do “Terceiro Olho” ficou muito nítida e meu corpo entrou numa espécie de formigamento. No tal campo dourado ou pasto, comecei a andar e quando atentei melhor vi que eu era um Cavalo – literalmente.

Nota. O Cavalo para o Xamanismno é o Poder, é o condutor e amigo. A Liberdade!


Meu Espírito se apossou em Unidade de um Cavalo, ou vice-versa, e andava por aquela paisagem; de repente, vi ao meu lado uma Égua e começamos a galopar juntos, em Liberdade completa. Paramos perto de um Rio e a Égua sumiu. Quando olhei para o Rio, em sua margem, muito próximo de mim, apareceu um grande Peixe Dourado. Ele brilhava como ouro, maravilhoso! E me falou coisas belas e importantes. Disse que meus rumos estavam corretos, nas Montanhas, pra eu não me preocupar e continuar; Ele sempre me dava e me daria apoio, proteção e inspiração; disse que tudo seria encaixado e providenciado e que estávamos juntos no Caminho.

Nota. O Peixe Dourado é uma das aparições de Krihsna.


Eu olhava para o Peixe Dourado e tinha vontade de mergulhar em sua garganta, que parecia guardar o Universo – a Divindade estava ali, sem dúvida. Logo em seguida Ele ter dito as últimas palavras, eu virei uma Águia e sobrevoei uma linda praia.

Nota. A Águia representa o Grande Espírito na Terra, o Espírito. Através da Águia, o Pai Celestial Wankantanka mandou que ela viesse a Terra e fecundasse uma Mulher para que nascesse o primeiro Xamã (que é aquele(a) que se comunica com Deus).


Continuei voando como Águia e sentia fortemente a vivência até que, adentrando uma Floresta, vi uma Aldeia Indígena, daquelas em que a Oca é comunitária, muito grande, redonda, formando um pátio no centro; o telhado tem uma inclinação em que o lado mais alto fica pro lado de dentro (ao pátio) e a parte mais baixa do telhado é voltada para a mata; deste lado, também, fecham-se paredes de fibras e folhagens dando segurança à Aldeia. Esse tipo de aldeia é comum no Norte do País, Amazônia, Rondônia, Acre, e em especial aos Índios Niarunas.

Nota. Ver Índios Niarunas no Filme “Brincando nos Campos do Senhor”, do diretor Hector Babenco. Índios que utilizam a Ayahuasca, bem como a forma de Aldeia citada e que vi no Ritual; os Niarunas e suas indumentárias ritualísticas e diárias. Demonstra bem a utilização da Ayahuasca, seus efeitos e responsabilidades. Fica clara a necessidade de haver uma Corrente Discipular entre Xamãs e Iniciantes. Mostra, também, que a utilização da Aya sem um “preparo do Xamã” pode resultar em grave desastre/tragédia.


Ao observar lá de cima, ainda como Águia, vi um Índio no centro do pátio da Aldeia e ele olhava pra mim; nesse momento, vi que o Índio era eu mesmo e passei imediatamente a me sentir ele, já no solo Sagrado da Aldeia, como Índio Brasileiro nato, um Niaruna/Jaguar, e uma voz me falou: já bebia Ayahuasca desde bebezinho; como Índio, dei risada concordando, em Felicidade e Satisfação deliciosas.

Assim, a vivência sumiu e senti vontade de ir ao banheiro, levantei-me e fui acompanhado por um Fiscal, não pra limpeza, mas em descanso. Ao voltar, tive um longo período de clariaudiência, ou seja, senti a forte presença de Entidades Espirituais que me fizeram diversos aconselhamentos – ouvi atentamente. Eram palavras ditas ao coração (ou dentro do coração) e ressoavam no “ouvido espiritual”, continham muito esclarecimento sobre a minha vida; eram indicações e soluções muito inteligentes e eu as recebia perplexo com sua sabedoria.

Ocorreram também algumas orientações mais incisivas, sobre assuntos que eu estava em erro. Agradeci a tudo e a todas as Entidades que me auxiliaram naquele Ritual. De repente, chegou o Padrinho/Fiscal e me falou que se eu quisesse “bailar” eu poderia me levantar e ficar numa área ali próxima, aceitei, e fui “comemorar, celebrar”, dançando o excelente “Trabalho de Ritual”. Adorei e agradeci.

De manhã, me encontrei com a Namorada e Amigos e fizemos uma “Partilha” de nossas experiências, enquanto voltávamos pra Casa. Um fato lindo se descortinou quando ela me confirmou que a “Égua” que havia galopado comigo era ela e que na vivência dela, ela tinha galopado com um “Cavalo” que ela achou que era eu, e confirmamos. Fizemos uma vivência conjunta/sincronizada, difícil de ocorrer, muito legal e prova de que não eram as vivências individuais simples alucinações.

Eles entenderam que eu tinha feito um lindo Ritual e eu concordei. Havia em mim uma Paz da qual eu raramente tive comigo. Um bem-estar, muito agradável, com a sensação de ter realizado algo muito especial e Divino. Um tempo depois, talvez uns três meses após esse Ritual, chegou às minhas mãos um Livro Sagrado, o “Bhagavad-Gita Como Ele É” do Swami Prabhupada, e com diversas ilustrações, sendo que uma das gravuras mostra uma das formas de Vishnu/Krishna que é justamente o “Peixe Dourado” – sua fala comigo, no Ritual, foi a fala de Deus-Pai ao Filho-Eu.

No Gomeral, como sabíamos, havia estórias de pessoas que viram no Rio perto de Casa um “Peixe Dourado”— tudo era muito interessante, as sincronias e “coincidências” (mesmo a Madrinha daquele centro era devota de Krishna). Soube também que o “Cavalo” é meu “Animal de Poder”, ou Anjo da Guarda do meu Espírito; ele é essencialmente xamânico, com seu simbolismo de Poder, de Liberdade, da Mobilidade de conduzir os Xamãs em suas viagens místicas a diversos Mundos Astrais. Também representa uma Entidade Protetora, Amigo, um Espírito de Luz e Transporte.

Portanto, ao ter tido contato direto com o Cavalo, eu havia realizado uma profunda experiência xamânica, de alta qualidade, posto que conduzido que fui à presença do “Peixe Dourado” (que é o próprio Deus).

Em continuidade, meu Espírito acessou outro animal, a Águia, que é, no caso, meu “Animal Sagrado”, já que a transmutação entre Cavalo e Águia deu-se após a presença do Peixe Dourado – a Essência Sagrada. A Águia para o xamanismo é um Animal Sagrado – é o Espírito; para os Índios Norte-Americanos é a própria Divindade. Nas Américas Central e do Sul são representados pelo Condor e Harpia. Sendo a Águia o animal terrestre que voa mais alto no Céu, diz-se que ela pode chegar até o Grande Espírito e regressar a Terra.

O vôo que eu fiz como Águia foi, de fato, majestoso, sobre uma Praia maravilhosa; unidade! Tão Divino que foi, levou-me até uma vida passada, que vivi anteriormente a esta, já no Brasil, Floresta Amazônica, onde me vi como Índio conhecedor da Ayahuasca. Confirmou-se a sensação de que eu já havia tomado a Bebida Sagrada, porém, havia sido em outra vida. Esse Índio/Eu derramou “arquivos” de Sabedoria em mim – Iniciação direta, re-iniciação completa!

Na Amazônia, o Jagube a e Chacrona, plantas com as quais é feita a Ayahuasca, são nativas. Proporcionam essas conexões (ou expansão da consciência), com imagens que revelam uma potência de Cura e vivificante preenchimento da Fé e de Paz, inigualáveis.

Todos esses elementos demonstram um ótimo Trabalho Inicial e fiquei muito Feliz. Confirmei meu início de Caminho na Ayahuasca e a determinação e certeza de continuidade em outros rituais. Durante vários dias ainda continuei “digerindo” as visões, audições e experiências; todos os conteúdos eram mais racionalmente sopesados e assimilados. Os elementos xamânicos muito definidos deram-me segurança para saber e querer continuar – houve uma melhora sensível e evidente do meu Ser.



Em breve, próximos Capítulos. Aguardem!