Capitulo IV

 

 

A GRANDE MUDANÇA


Esclarece o Prof. Mircea Eliade que a experiência xamânica é essencialmente de mutação, assim como o é a morte/renascimento iniciáticos.

Nota. Mircea Eliade. “Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase”. Ed. Martins Fontes.


De fato, uma grande mudança é sempre precedida de pequenas outras mudanças, que, em menor grau, vão moldando as guinadas mais expressivas. A relação imediata entre mutação e xamanismo é que o Xamã, através do êxtase espiritual (transe), “muda” seu estado de consciência e sai da sua condição profana para uma condição divina; ou seja, ele passa de um estágio de “ego” para um estado de “eu”. Essa mudança de uma pessoa antiga para uma pessoa nova, é a própria morte/renascimento iniciáticos – tal processo ocorre expontaneamente (como no meu caso), e/ou por acompanhamento de um Mestre diretamente com o Iniciado; pode, também, ocorrer na presença/diretriz de um Mestre Espiritual.

O que aqui neste Capítulo eu chamo de minha Grande Mudança, tecnicamente para o xamanismo, pode ser considerado como uma pré-iniciação ou continuação do “chamado” (ocorrido com Vishnu). Essas questões um tanto acadêmicas, aqui ventiladas, dentro de uma narrativa biográfica, são necessárias para não perdermos de vista o fio da teia que liga a vida cotidiana de um homem com sua condição inata de xamã.

O que nos interessa aqui, nestas narrativas, é ir ponteando fatos e eventos que demonstram a aparição de um xamã, o surgimento daquilo que inato veio se firmando até concluir-se em realidade.

Segundo o mesmo citado Autor, o Prof. Mircea Eliade, xamã é aquele homem/mulher que concretamente comunica-se com os espíritos e com as divindades.

Para conseguir essa comunicação, o xamã, além do “chamado” e dos rituais iniciáticos, utiliza-se da viagem extática espiritual, por diversas técnicas, conduzindo sua Alma em Vôo Místico/Transcendental aos Planos Celestiais ou Infernais, onde fará seus apelos, em prol do auxílio, de pessoa ou sociedade (tribo), adoentados ou com problemas, bem como para sua evolução e orientação aos seus auxiliados.

Normalmente o xamã passa por um processo muito forte, pessoalmente, onde encontra, suporta e cura sua própria doença (ou perda de sua Alma). Nesse processo, sozinho muitas vezes, o xamã faz o grande mergulho dentro de si para procurar o seu Eu Divino, a sua Essência e através dessa reunificação e força, enfrentando seus medos, traumas, seus demônios e limitações, só aí então atinge o domínio de seu Ser e das forças que o acompanham – renasce!

Basicamente, foi esse o processo que ocorreu comigo, que eu chamo de a Grande Mudança, muito parecido com essa seqüência de morte/renascimento xamânicos. O Iniciado tem que verificar o “chamado”, diagnosticar sua própria doença e decidir o rumo a tomar: se recusar os fatos, estará negando sua vocação; se aceitar os fatos, terá que iniciar seu processo iniciático.

No segundo caso, da aceitação da vocação, o mergulho em seu Ser é como uma implosão/introspecção, resultando na morte do antigo ser profano com o renascimento de um novo ser divinizado pelo seu Eu Superior. Se negar a sua vocação, pode ter sérios problemas existenciais.

Em meu caso, aceitei prontamente o “chamado” de Vishnu, a “tarefa” dos Mestres de achar meu “cristal” interior e providenciei o mergulho para a cura da doença, e passar, enfim, pela morte e renascimento.

O contexto em que eu me encontrava era um tanto preocupante, de fato; eu não estava bem, como já havia dito. O distanciamento entre a rotina que eu tinha com a Essência do meu Ser era evidente; estava claro que meu casamento também não mais se sustentava; várias terapias e aconselhamentos profissionais não foram suficientes; na Advocacia, ainda que numa fase boa, como Procurador do Município de Lagoinha/SP, também estava começando a “cansar” e a perder o forte interesse e ímpeto, posto que na faixa de uns 15 anos de profissão ativa em todas as áreas (como eu sempre disse as mazelas humanas eu as conheço).

Toda a rotina pesada somente era amenizada, compensada, com a ocupação e dedicação que eu mantinha com os meus Filhos; café, almoço, levar/buscar nas escolinhas, jantar, filminhos, brinquedos, enfim, era isso que me ocupava e satisfazia; no mais, sentia-me distante de tudo e de todos, com uma espécie de crise existencial, tipo uma crônica depressão, porém sem deixar a peteca cair totalmente, ou seja, lutava para continuar na ativa e me mantinha, guerreiro. Outro alento que muito me agradava, nessa época, era o Sítio de Cunha/SP, o Sítio Paraitinga, de meio alqueire, com pomar, nascente, casa simples de roça, com fogão à lenha. Ali eu me mexia, capinava, podava frutíferas, lidava com o fogão, enfim, passava os domingos com os Filhos, a Natureza e descansava com toda aquela atividade diferente, mas que completava o Ser.

Pus em prática alguns conhecimentos sobre como cuidar da Terra, muito do que vinha das diversas idas à Fazenda Rio Claro. Mesmo no Sítio era difícil arranjar tempo pra ir; chegava a demorar três/quatro meses pra ir e passar um domingo.

De outro lado, estava bem distante de meu violão e das minhas poesias – isso me deixava entristecido; eram atividades que eu prezava muito, mas não sobrava tempo ou situação favorável. Assim, com essas e com outras, eu estava numa espécie de “emergência espiritual”, como diria o Prof. Groff. Só não entrei em grandes revoltas e desequilíbrios para poupar os Filhos e família, mas cheguei no estágio em que tive que tomar fortes decisões e uma delas foi a separação no casamento, com a mudança para o Sítio de Cunha/SP. A ex-esposa ficou com os Filhos na casa da Cidade (em Guará).

Sem dúvida, o casamento e a incompatibilidade conjugal nele surgida era sim o ponto fundamental de toda a minha caótica situação – com tristeza, sim, pelo distanciamento dos Filhos.

O resgate de um Karma sempre é bem difícil, mas quando conseguimos concluí-lo, aí sim, vem um alívio bem satisfatório; a consciência alivia, o Ser renasce. Alguns amigos Espíritas viram esse resgate, em que eu tinha que vivenciá-lo para poder transmutá-lo – e foi o que foi feito (ainda que enredado na própria existência, sem uma plena consciência aparente). Os caminhos da vida nos levam a encontrarmos justamente com aquelas pessoas as quais teremos que dar ou receber, ativos ou passivos, agindo ou reagindo – este é o Karma.

A compreensão vem após a vivência. No início da relação, outros aspectos suplantam a percepção de que estamos resgatando algo que vem de outra vida que tivemos; e nessa outra vida agimos de tal ou qual modo e causamos conseqüências que podem prejudicar os outros.

Quando reencarnamos novamente nesta abençoada Terra, temos a nova chance de acertarmos e corrigirmos situações que causaram danos a outras pessoas e a isso se diz que é um resgate de Karma. Também há o resgate de Alma (que no meu modo de ver, é um tanto mais específico). O Resgate de Karma é mais abrangente e alivia e limpa toda a reencarnação. No resgate de Alma, se limpa um mal cometido na vida presente.

Ambos são de grande valia e diversas são as técnicas para a utilização de um ou de outro processo, além das atitudes em vida. Até mesmo um forte acontecimento em nossas vidas, quando decidido de forma correta, justa, equilibrada e definitiva, pode alavancar um resgate de Karma ou de Alma, e colocar a pessoa na situação de cura, de bem-estar, de alívio da Consciência.

O que nos é suficiente? Pouquíssimas coisas senão nós mesmos! Assim, fui morar no Sítio de Cunha/SP, com pouca bagagem, que coube no Fusca; é certo que a pequena Cabana do Sítio já estava mobiliada e em condições de me receber. No entanto, a mudança sempre é trabalhosa, exige a coragem de abrir os novos espaços, empacotar e desempacotar, retirar e guardar, levar e acomodar, enfim, exige a vontade, a disposição. A mudança exige o espírito positivo, ativo, persistente; exige o domínio sobre o objetivo, o controle da situação.

A mudança deve levar além, não aquém, no sentimento interior. É uma evolução do Ser e não uma contaminação destrutiva. A mudança usa dos ventos, usa das torrentes favoráveis, ao ir adiante; a mudança pede toda a Sabedoria que possuímos para que estejamos prontos às novas eventualidades. A mudança apaga a estagnação existencial, tirando de cena o morto-vivo e instalando o vivo-novo.

Desse modo, quando me vi sozinho, chegando com minha bagagem no Sítio Paraitinga, com o peso daquela forte decisão, com o sentimento de dor pelos Filhos que ficaram, ainda assim, me senti vitorioso. Triste mas de cabeça erguida, com a Consciência em harmonia – e essa sensação me confortou e pude ter uma boa noite de sono. Ainda que fosse a primeira noite do cume de toda a fase chamada emergência, ela, junto, já trazia os ventos e brisas da nova fase, o que fez com que toda a tensão dos momentos anteriores tenha se arrefecido e entrado numa bonança, numa calmaria aliviante.

Ali, naquele isolamento do Sítio, já comecei a pensar na nova vida, nas novas possibilidades. Um novo tempo, e eu deveria pedir de mim mesmo a melhor sintonia do meu Eu com as circunstâncias que me rodeavam. O lindo “cristal” interior deveria refletir seu brilho no mundo exterior. A vontade deveria dominar o desejo. O Ser deveria comandar o Ter. Fiz este novo contrato comigo mesmo, firmei intenção e decreto nesse sentido e dormi exausto.

Acordei bem cedo, com o mugido de um bezerro, e o canto de um galo, lembrei do dia anterior, mas um sentimento forte de independência e Liberdade me varreu o passado e apenas, por um instante, determinei que o bom passado permanecesse em minha memória; decidi que na nova etapa da minha vida a recordação do passado seria usada para o aperfeiçoamento do presente e que os fatos positivos seriam sempre enaltecidos e honrados no presente, como se fossem os tijolos da estrutura pessoal, do meu Ser.

Num gostoso momento de preguiça, antes de levantar-me da cama, com aqueles sons rurais, lembrei-me da Fazenda Rio Claro, lugar onde minha vida foi lapidada por uma cultura familiar e aristocrática, no manejo da Terra, no contato com a Natureza. Levantei-me e ao urinar, houve uma “limpeza astral”, posto que o xixi era da cor de coca-cola, impressionante aos olhos, mas senti um grande alívio interior e físico.