Capitulo I

 

 

RECEITA DE NATAL


Estávamos descendo a Serra para mais um Natal em Família; eu, a Namorada e uns quatro amigos. Tínhamos virado a noite em Casa e encontrávamos ainda no embalo da cachaça; mas como o dia 24/12 é em família, rumamos para a Cidade para rever os nossos.

Eu já estava morando na Montanha há um ano e meio, mais ou menos, e a Namorada comigo há seis meses. Estaríamos com nossas Mães, Filhos e Irmãos e isso era importante.

Foi nesta noite de Natal que meu Filho Ary presenteou-me com um Caderno de Receitas “naturets”, copiado por ele mesmo de outro Caderno que fizemos anteriormente eu e a ex-mulher. Eu vivia pedindo pro Ary (que estava bem interessado em fazer escola de gastronomia), para ele me passar aquele antigo Caderno de Receitas, mas com as circunstâncias diárias de desencontro, o tal Caderno demorava a vir pras minhas mãos. No entanto, naquela noite, depois de um abraço delicioso do Filho Léo, o Ary chegou com o Caderno de Receitas, e a primeira página continha o seguinte Poema:


“Caly.

Caly trocou tudo em sua vida, até sua vida.

Bigode por barba

Maleta por imborná

Gravata por colar de contas

Terno por bata

Sapato por bota

Asfalto por grama

Prédios por árvores

Aviões por pássaros

Lâmpada por vela

Postes de luz por estrelas e pirilampos

Carros por cavalos

Aspirador por vassoura

Caronas por longas caminhadas

Chuveiro por cachoeiras

Gás por lenha

Barulho por grilos

Calor por frio

Clientes por amigos

Caneta por enxada

Papelada por violão

Raiva por calma.

Foi morar com o Velho Pai Nera.

Os duendes o visitam.

Só não trocou, suas comidas.”

ARY 2007/Natal!



Esse Poema foi um lindo presente que recebi, especialmente porque escrito pelo meu Filho, mas também porque fazia um belo resumo, um forte apanhado das mudanças que ocorreram em minha vida. Um Filho ter notado tão bem alguns detalhes, e, de forma poética (como sempre foi minha vida) ter observado essas mudanças essenciais para o seu Pai, comoveu a todos, quando li o Poema em voz alta, momento mágico pra família.

Todos ainda estavam cheios de dúvidas sobre os meus rumos, se minha nova vida daria certo, morando na Montanha. Eu tinha feito fortes gastos para construir a Casa de Pedra, aonde só se chega a pé. Todos se preocupavam com a minha adaptação e como eu faria com a Advocacia. No entanto, veio o Ary e brindou a minha decisão como uma mudança saudável, por seus olhos de Filho, com o lindo Poema. Troquei mesmo isso por aquilo, e está sendo ótimo, inclusive viver junto com o “Velho Pai Nera” (que, no caso, é um trocadilho que o Ary fez em relação a uma grande e velha Árvore Paineira que tem em frente de Casa e também a representação poética de um Ser Superior – o Eixo do Mundo, O Grande Espírito).

Esse Natal foi muito bom, eu estava em Paz, feliz com a Namorada e com todos, e, especialmente, com os Filhos, e com a mudança pras Montanhas. Em seguida, o Léo pegou o violão e pediu pra eu tocar um pouco; comecei algumas músicas e acordei assustado com a gargalhada de todos tirando sarro do meu cansaço e ter dormido em cima da viola.

As tradições familiares são respeitadas por mim, e quando posso, estou presente, por isso o Natal, como disse antes. É que, nascido em Guaratinguetá-SP, num céu de Áries com Capricórnio, no mesmo mês de abril em que chegou também a primeira televisão da casa, nos idos de 1962 (ano do Tigre). Sétimo filho do Sérgio Altino Moreira Ribeiro e da Nilza Varajão Junqueira. Morávamos na Vila Alves, bairro de classe média, um pouco afastado do Centro (na época). Meus irmãos Tê, Caia, Serginho, Lelé, Pedro e Joca, juntos numa casa pequena, mas acolhedora. Haviam muitas crianças no Bairro, de todas as faixas e assim o grupo de amigos era e sempre foi muito grande.

Meu apelido veio logo cedo, antes de eu completar dois anos, quando comecei a falar – é que eu ouvia sempre os meus pais me chamarem pelo meu nome de certidão Antônio Carlos, então, ao imitá-los eu falava: Tana Cala quer água! Cala Cala quer brinquedo! Superinusitado e difícil de decifrar, para todos. Até que algum irmão ou mesmo o Pai descobriu que eu falava igual aos Índios, dizendo que minha pessoa queria isso ou aquilo – foi engraçado e logo começaram a me chamar de Cala Cala e, depois, Caly Caly – ficou até hoje esse apelido/nome.

É interessante como esse fato de falar colocando o sujeito antes do objeto, ou seja, falar o nome antes do resto da frase, em minha vida, foi marcante (como veremos adiante, no meu processo de estruturação xamânica). Muitos estudos e pesquisas estão analisando “coincidências” de crianças que citam fatos ocorridos em suas vidas passadas; talvez, no meu caso, de falar como Índio (Caly Caly quer água, etc) tenha sido já, desde a pequena infância, um indicativo muito forte das minhas existências anteriores como Índio das Américas do Norte e do Brasil (como veremos em outros acontecidos).

Outros fatos marcantes dessa fase inicial da minha vida, contados pela linda Mama, na época em que eu ainda engatinhava, foram a travessia da cadeira que cercava a porta da cozinha (para que a filharada não atrapalhasse a feitura da refeição); essa cadeira ficava deitada na porta da cozinha e o Caly Caly, mesmo engatinhando, passou pelos irmãos e por baixo da cadeira indo puxar a saia da Mãe que fritava os pastéis deliciosos.

A outra façanha do tribalista foi a de pular o muro da frente da casa, na mesma época, e também engatinhando, subiu na caixinha do registro d’água, subiu na grade do muro, virou pra o lado da rua, se pendurou e deixou-se cair com a fralda na bunda amortecendo a queda – tudo filmado na memória da vizinha Vó Lica, que gargalhou com a cena.

É lógico que com essas e outras, o maldito curumim já não via fronteiras em mais nada e logo estava no meio da molecada, fazendo todo tipo de estripulias. E foi assim, até a idade da escola, cresci nas ruas do Bairro, da Cidade. Nas férias escolares dos irmãos mais velhos, íamos pra Fazenda Rio Claro, do Tio Hugo e Tia Lena, em Cruzeiro/Lavrinhas-SP.—lá, era outra história.

Ainda, na Cidade, com a criançada de casa e da Vila, brincávamos muito e também brigávamos, e com o tempo e a minha personalidade (um tanto esquentada), foram, de fato, me chamando de Índio. Caly Caly – o Índio da Vila Alves. Brigava pelo justo, desde cedo queria Justiça nas coisas e esse é outro traço marcante. É sabido que os Entes Humanos (Índios de todas as Raças) foram massacrados com suas Tribos, Terras e demais Direitos. É natural, portanto, que uma Alma Indígena, reencarnada, chegue novamente à Terra sedenta de Justiça.

Eu era assim, quando via roubalheira nos jogos e brincadeiras da infância, logo me zangava, mordia a língua e partia pra briga do Justo. Ganhei, com isso, mais amigos do que inimigos.

E passava o dia todo nas ruas, brincando, jogando e também trabalhava recolhendo os recicláveis da época (metais, vidros, papéis); com o dinheiro arrecadado e dividido entre os que ajudaram, comprava meus objetos, doces, ia ao cinema aos sábados e domingos. Lembro-me que às vezes tentávamos ganhar um pouco mais e molhávamos os jornais ou colocávamos pedaços de tijolos para aumentar o peso; ocorria, porém, que o Sinhozinho, dono do Ferro Velho, descobria a trapaça e ficava louco da vida com a gente (dávamos risada do fato e pegávamos o troco).