O Chefe Índio

 

 

Quarto Ritual


A cada mês retornávamos ao Ritual, com perseverança e rendição ao Sagrado Caminho.

Com os já inseridos planos de abrirmos um Instituto em Casa, fomos nos empenhando em trilhar o Caminho, alicerçando nossos passos, em conjunto, e com muita Fé. Em Casa, na Montanha Sagrada, trabalhávamos a Terra, em convívio com a exuberância da Natureza, da Floresta, das Águas, enfim, o isolamento de um Mosteiro xamânico. Estávamos em total harmonia com as Forças Cósmicas, e isso ajudava muito nos Rituais e na conexão espiritual. A Ayahuasca era o detalhe fundamental a coroar toda a Trilha que foi escolhida, e só veio para transmutar tudo que já era Divino em Brilho e Luz.

Partimos para o meu quarto Ritual, já praticando algumas regulações de não comer produtos animais, de não beber alcoólicos, nem drogas, estando num dia mais leve com orações e contemplações, o que muito ajudou no Ritual. Ah, outro detalhe muito simples também, mas que deu grande resultado no Ritual foi o de tomar banho no Rio Cristalino do Poço Verde, antes de irmos. Notei, em boa evidência, que essas pequenas regulações e pequenos sacrifícios ajudaram muito no Ritual.

Comungamos da Ayahuasca, após a palestra inicial, e a novidade é que estávamos no Templo Maior, recentemente construído, redondo e com uma linda Fogueira no centro; as cadeiras em círculo, reunindo toda a Irmandade no mesmo local, ficando os homens de um lado e as mulheres do outro lado, com uma leve separação entre as fileiras de cadeiras. Foi o primeiro ritual em que eu e Namorada ficávamos juntos no mesmo Templo, podendo de vez em quando, olhar um pro outro; isso ajudou diminuindo a preocupação mútua que tínhamos (do mesmo modo como foi com o Ary). Mesmo com as luzes apagadas do Templo, a própria Luz da Fogueira ajudava a nos vermos de vez em quando, durante o Ritual, tranqüilizando-nos. A Força veio rápida e limpa, acredito que em razão das abstinências que tive, durante o dia anterior, e no mesmo dia (como relatado). Começou meu Trabalho com a chegada do Mestre Chico, muito alegre por me ver e eu por vê-lo também me alegrei. Ele reforçou, rapidamente, algumas orientações e me disse que eu iria ficar muito feliz com a presença de um antigo amigo. Nisso, quando ele falou, apareceu a figura imponente do Chefe “Vento que Ruge”, um Índio norte-americano, ao que fiquei sabendo o Guardião da Posição Norte, casa do Totem Grande Búfalo Branco, ancestral das primeiras Tribos, envolto numa aura maravilhosa de Luz, veio trazer-me Sabedoria e Gratidão, para que eu sempre reconhecesse a imprescindível conexão dos Ancestrais com as novas gerações de Xamãs.

O Chefe, ao me olhar, reclinou a cabeça e sorriu, em cumprimento, dizendo estar muito feliz de me ver retomar o Caminho Sagrado. Falei pra ele que eu não estava retomando e ele retrucou que eu estava sim retomando, e eu lhe disse: não “Mestre”, eu nunca saí do Caminho! E rimos muito. Ele me deu razão, ao final, pois eu o reconhecendo como Mestre (e Chefe) já indicava que sempre estivemos juntos ainda que um tanto distantes um do outro; e eu me emocionei em seguida, em lágrimas compulsivas ao me lembrar do muito que vivemos em nossa Tribo (em vidas anteriores).

Ficamos, após a emoção do início, por um bom tempo apenas nos olhando e em nossos corações as lembranças muito antigas faziam sua florada e o que eu lembrava ele enxergava e o que ele lembrava eu enxergava – uma linguagem dos sentimentos, sem palavras; uma comunicação sutil, mas muito eficiente em expressão do real, do não-tempo. Era como se estivéssemos vendo e sentido as mesmas imagens e lembranças pelo caminho da saudade. Foi um momento mágico, recordando o apogeu de nossa Tribo, as grandes conquistas, os ensinamentos, os acampamentos, os belos Rituais, a Sabedoria das Nações das Estrelas, os Animais, o Povo em Pé, o Povo de Pedra, a Harmonia com a Mãe Terra e com tudo o mais – era o auge do Paraíso (ainda não havia sinais drásticos do Homem Branco). Uma época de prosperidade integral entre os Entes Humanos e o Grande Espírito; era isso que eu e o Chefe Vento nos recordamos um ao outro, em vivências reais, coloridas de luzes nunca antes reluzidas sobre nós. Era um passado atual, um momento ancestral perpetuado no agora, a eternidade se impondo sobre o presente, a infinitude controlando o espaço e a duração, a liberdade compondo a vida.

Após esse lindo momento de “conversa”, o Chefe Vento ainda me disse por telepatia para sempre manter a abertura aos Guardiões dos Quatro Cantos, que são a nossa Força e Sabedoria e que conduzem a Chama Sagrada pela Grande Roda da Vida. Nota: Os Guardiões dos Quatro Cantos são: o Lobo na Direção Sul (Curadores), o Urso na Direção Oeste (Guerreiros), o Búfalo na Direção Norte (Ancestrais) e a Águia na Direção Leste (Visionários). Cada um desses Totens apresenta qualidades e aspectos relacionados à Roda da Vida, Roda de Cura, Roda Medicinal. A Pirâmide está aí, disse ele, e quando olhei melhor em volta de nós havia uma espécie de cone gigantesco de Luz, sendo que era formada por milhares de Índios, uns sobre os outros, envoltos numa Luz Dourada que provinha de um Sol Brilhante lá no alto – foi estonteante ver tudo aquilo. Quando voltei o olhar, o Chefe Vento não estava próximo. Agradeci ao Chefe, e àquele Cone de Índios e Luz.

Perdi um pouco a conexão e o transe e resolvi ir ao banheiro. Retornei ao Templo e me acomodei no chão bem perto da Fogueira Sagrada, e rapidamente retomei a Força e as Compreensões sobre o Caminho Sagrado e todo o “downlound” que o Chefe Vento tinha me passado; toda uma Sabedoria e toda uma Memória Ancestral foram transferidas (ou re-acendidas) em mim e tudo se abria em clarividência maravilhosa e clariaudiência esclarecedora. Aceitei o quarto copinho de Aya e no ritmo de uma música, minhas Mãos ganharam vida especial e começaram a se movimentar praticamente independentes do que eu queria; assim aceitei o comando delas e deixei-as fluir. As Mãos faziam movimentos diversos, em sincronismo, faziam posições e encaixes inusitados e diferentes; eu fui curtindo aquilo sem saber o por quê daqueles movimentos (que já contaminavam os braços e o corpo todo num bailado delicioso e vibrante). Ao mesmo tempo, os movimentos das Mãos dançavam com o Corpo, mas comunicavam-se com a Espiritualidade – era uma espécie de Mudras (a magnetização e a comunicação da vibração sutil espiritual canalizada até os planos inferiores; a sua maior expressão e mais reconhecida posição é a famosa Mãos Postas para Rezar/Orar; simultaneamente, as Mãos encaminham Apelos e recebem Bênçãos). Nesse trabalho com as Mãos eu fiquei até amanhecer, num bailado delicioso, Corpo vivo, Alma leve, Mãos-antenas, Sintonia Cósmica e rítmica. Além de tudo isso, todo o Ensinamento do Chefe Vento que Ruge, trazido pelo amigo Mestre Chico, configurando uma bagagem xamânica monumental – tudo me encheu de satisfação estelar e felicidade abundante que virava Dança e Luz!

A aceitação e a confiança que aqueles Mestres me traziam era algo de outro Mundo mesmo; de imediato chegavam, e parecia que nos conhecíamos há muito tempo; eu me sentia já sendo preparado para passos mais evoluídos e aprimorados, e assim, me sentia entregue ao Caminho, confiante neles também. A interatividade era mais intensa do que o que nós conhecemos aqui, no Mundo Material, Físico; por ser transcendente e espiritual essa interatividade com esses “Seres” é mais completa, preenche lacunas, estanca ansiedades, absorve frustrações, desfaz os medos, estabelece contato e transfere Sabedoria – é a Liberdade e a Vida Reais! Saliente-se também o dom de auxiliar-nos que eles têm em sua vinda até nós, para trazer a Cura e a Benção, sempre satisfeitos, amigos, pacientes e verdadeiros. Quando notam algo denso, nos ajudam nas necessárias “limpezas”. Eu, ainda nesse Ritual, não tinha experimentado uma “limpeza” mais forte, senão bocejos, lágrimas e urinas; mas é certo que essas “limpezas” consideradas mais leves fazem o mesmo papel de outras mais fortes; e dependem também da postura do Xamã Guia, quando deseja corrigir o caráter ou adiantar a purificação de uma forma mais branda ou mais severa – depende do Iniciado.

Amanhecido o dia, a Irmandade começou a ir acordando, aos poucos, e eu ainda estava na Fogueira, observando os últimos troncos em brasa, como um Guardião da Chama Divina que queimava em meu Coração, por todos e por mim. Fomos ao café.

Aho!