A Caixa Preta

 

 

Segundo Ritual


Após dois meses, retornamos ao Centro de Rituais para participarmos do meu Segundo Ritual com Ayahuasca, sendo que nesse, o meu filho Ary também estava presente para fazer o seu primeiro Ritual. Recebemos as orientações, em conjunto, e novamente fomos separados, ficando as mulheres no Templo menor e nós homens na varanda da Casa. Fiz as minhas orações e comungamos da “Bebida Sagrada”; após uns 20 minutos comecei a ver e sentir as “mirações”, muito parecidas com as do Primeiro Ritual, composta de hologramas, formas geométricas, arabescos, tetos e pisos e muitas cores e luzes. Num dado momento, tudo aquilo entrou/virou num lugar muito escuro e eu estranhei. Olhava e tentava sentir outras coisas, mas não saía dali; atentei melhor para o que estava acontecendo e senti que eu estava bem na “Força”, ou seja, meu transe místico estava ativado pela Ayahuasca, porém eu continuava naquele lugar escuro.

Minhas meditação/concentração estavam corretas. Eu sentia o transe em forma normal de expansão da consciência; no entanto, estava num lugar escuro que tomava todo o meu Ser. Esperei e mantive a meditação; procurava não racionalizar a situação e apenas sentia. Nada mudava e o tempo e as músicas iam passando; mantive a calma e tinha Fé em mim. Passei, então, a vivenciar o lugar escuro e notei que era uma “Caixa Preta”. Observei aquelas paredes e não havia uma saída aparente; o tempo passava e eu observava aquele lugar muito escuro. Parecia mesmo um teste de paciência, de coragem, sei lá; na dúvida, me mantive firme. Num determinado momento, após umas duas horas naquela situação, em transe e na “Caixa Preta”, notei que a parede da “Caixa” começou a formar nervuras escuras, mas com um pouco de cinza; apareciam, as nervuras, em linhas arredondadas e curvas. Comecei a olhar melhor e me concentrar naquelas novas cores de cinza, e algum prata fosco; logo essa nova textura que se apresentava na parede da “Caixa” tomou o aspecto de algo vivo e num instante muito esclarecedor, percebi que aquela parede com textura era uma grande asa de mariposa ou de morcego (mas não pude precisar qual dos animais).

Sei que, nesse exato momento em que percebi que se tratava de uma asa, essa mesma asa saiu voando e abriu a “Caixa Preta” me jogando pra fora, em alívio que me trouxe de volta ao Templo, com o fim do transe. Muito cansado, tive uma forte sensação de ter recebido uma Cura Espiritual, pois me sentia muito leve e feliz. Havia vivenciado o Mundo da Escuridão e, com Fé, ultrapassado seus limites e dissolvendo suas forças pela perseverança! Foi como se o meu Espírito tivesse sido aprisionado num casulo temporário, a fim de que mostrasse sua reação (fosse-qual-fosse); no entanto, como firmei posição na Fé, a direção do encaminhamento (reação) foi pela soltura, pela liberdade. Bailei com felicidade o resto do Ritual, em agradecimento.

Ficou-me claro que este Ritual foi uma Iniciação, ou seja, uma etapa divisória no meu processo xamânico, em meus aprendizados ancestrais. Isso foi confirmado pelos comentários dos amigos, no dia seguinte, indicando que a prisão do Espírito (como foi no meu caso, na “Caixa Preta”), serve como forte teste ao Xamã e seu desempenho no “livrar-se”, demonstra preparo para a continuidade no processo de aperfeiçoamento. Observei que a calma que eu mantive, ao ser aprisionado, me pôs em conexão à Asa Libertadora; do contrário, se houvesse ansiedade, a conexão seria com o Caminho Infernal (que é muito difícil, maltrata e gera traumas no xamã inexperiente). Assim, tive sorte e optei pelo correto, vibrei no positivo e funcionou, no melhor. Não agi com medo de ir ao Inferno da Escuridão e nem a raiva para tentar quebrar aquelas Paredes Escuras, mas sim agi com Paz para aguardar o processo resolver-se – isso foi tudo.

É importante, também, relatar que naquela “Caixa” muitos traumas, angústias, medos, ansiedades formavam suas Paredes e, quando a Asa apareceu e voou, levou tudo aquilo consigo, dando-me grande sensação de Cura e bem-estar. Seria, sim, possível um Ritual de grande “peia” (como dizem), em que a pessoa sofre a presença e a força do sub-mundo, dos umbrais das plataformas inferiores; porém, pela Graça de Deus e Nossa Senhora, além dos atentos Guias Espirituais ali presentes, tive a resistência e determinação de não cair, de não deixar o ego (pelo medo ou raiva) transformar a “Caixa Preta” em algo pior, de dor e sofrimento.

Foi um Ritual forte, com momentos angustiantes, mas a Fé saiu vitoriosa e a liberação extasiante (bater asas e renascer). Dois aspectos xamânicos dessa “Caixa Preta” ficaram bem evidentes, quais sejam: pelo aspecto da Asa de Mariposa, me pareceu ser (a situação em que eu estava), uma representação de um Casulo, reciclando ali todas as forças em meu Espírito latentes, com a finalidade de transmutá-las em Energia do Vôo Libertário e Curativo. Pelo aspecto de Asa de Morcego, foi bem parecida, a “Caixa Preta”, tanto com a posição do morcego de se enrolar com a própria asa (quando em repouso), mas também por parecer a “Caixa Preta” como uma caverna ou gruta muito escura, de onde o morcego sai em vôo.

“O Morcego é o símbolo Maia e Asteca do renascimento”, diz Jamie Sams em seu Livro “As Cartas do Caminho Sagrado”, e coloca esse assunto como sendo “A Morte do Xamã”, que é o enfrentamento que todos nós passamos com as mudanças e aprendizados, ultrapassando limites, com a morte de aspectos do nosso ser que inibiam nosso crescimento ou nosso progresso vital, que acabam falecendo e nos liberando para o novo ser. Ensina, ela, que o Xamã passa por isso em muitas ocasiões, ao ir aperfeiçoando seu processo espiritual. São as incontáveis iniciações ou mortes/renascimentos dos Xamãs, necessárias aos seus aprimoramentos. “A Morte do Xamã constitui um símbolo desse crescente processo de conscientização que nos conduz à Totalidade” – Jamie Sams.

Pra mim, esse Ritual ficou bem evidenciado como Iniciação Xamânica, pois a dualidade da obscuridade inicial e da libertação final foi bem marcada como morte/renascimento (ou enfrentamento/cura). Muitos rituais xamânicos de covas e noites escuras sozinhos nas florestas são descritos pelos xamãs, como rituais iniciáticos de enfrentamento de medos, ansiedades, vícios, maus-hábitos, orgulhos, etc.

Esse enfrentamento (ou guerra), e a vitória sobre essas situações colocam, os xamãs, em posição de força, segurança e domínio sobre seus poderes mágicos que serão aflorados, na harmonia em utilizá-los e até mesmo para a repulsa aos poderes maléficos e intrusos que possam lhe sobrevir. Com a vitória sobre as negatividades e obscuridades do Ser, o Xamã fica pronto para a Luz e para o Vôo Libertário, que o estabelece em Comunicação com os Guias e as Divindades (Pai, Filho, Espírito Santo). É sim um processo gradual e evolutivo, depende de “ser guerreiro” e persistente, além da rendição ao “porvir”; abrir sempre o coração, é o sentimento que conduz, além, é claro dos “Anjos da Guarda” (que são os Animais Totens, de Poder, de Sabedoria, de Cura e Mensageiro, entre outros), bem como dos Ancestrais Guias/Xamãs (que nos ensinam e auxiliam). Aho!!!

O fictício Batman talvez seja um exemplo de xamã, moderno que seja, mas inspirado no ancestral símbolo do morcego, transformando-se em super-herói, combatendo o mal e “curando” sua tribo (cidade); tão famoso ficou o personagem e muito de xamanismo traz em seu contexto. O mesmo se nota, e com maior evidência, no filme Avatar, onde o personagem central deita numa “máquina” (bem parecida com a “Caixa Preta” ou com uma cova, ou com um casulo, enfim) e se “desdobra” num Universo Paralelo, em que assume outro “corpo”, vivenciando auxílio e progresso espiritual. São tantos livros e filmes, são exemplos reais e fictícios, que demonstram as variedades das extensas possibilidades do Caminho Sagrado.

O fato é que o Sacrifício, que a Purificação e que a Cura, perpetrados nesse Ritual, foram essenciais para a minha vida e para meu Processo Espiritual.Sacrifício, porque as mudanças exigem atitudes que derrubam e abatem hábitos confortáveis e antigos; bem como em relação ao Ritual em si, a “Caixa Preta” foi bem difícil de encarar/suportar (acredito até que fui abençoado por não ter tido visões dos umbrais e planos infernais que tenham sido dissipados/dissolvidos e curados; sei de casos de processos e visões medonhas e dolorosas – é a aludida “peia”). Purificação, porque houve durante todo o tempo da “Caixa” um enfrentamento do meu lado obscuro (inclusive de vidas passadas – karmas) e, por conseqüência, a sua transmutação (ou mudança transcendental), e por fim a sua eliminação (desses aspectos negativos e obscuros). Cura, porque houve a vitória, a perseverança e o Vôo Liberatório, resultando em morte da treva e renascimento da Luz.

Friso, ainda, que pouco tempo depois desse Ritual vários aspectos do meu dia-a-dia foram melhorados, em especial, que consegui parar por completo de beber a cachaça ou qualquer outra bebida alcoólica, o que muito me ajudou em todo o Processo, com a compreensão das causas e fugas atreladas, e a saúde da extinção do vício. A Bebida Sagrada Aya teve uma força espetacular sobre a bebida alcoólica, derrubando seu hábito, sua bengala, sua fuga, sua intoxicação, sua prisão e tudo o mais; lembro-me dos irmãos Entes Humanos, Tribos de todos os matizes, como que o “homem branco”, através da bebida alcoólica, os iludiu e os enfraqueceu no vício e assim, sorrateiramente, os dominaram, os roubaram, sua Terra, sua Dignidade e sua Vida.

Hoje em dia, o Grande Sistema escraviza todo o Planeta e faz o mesmo, através da indústria da bebida, repetindo a velha fórmula (entorpecer pra sugar) em todas as classes sociais de todos os países – isso é uma vergonha e lamentável! Compreender tudo isso é muito gratificante, e digo também em relação a essa experiência de vivenciar um Ritual e depois ler nos Livros relativos à matéria algo muito idêntico ou simbolicamente parecido (o que alguns chamam de arquétipos, outros de mitos) – posso afirmar: a “Caixa Preta” é a “Morte do Xamã”, é a “Noite do Medo” das Tribos Norte-Americanas, é a cova do “Deus Morcego” das Tribos Mexicanas, é a “Morte/Renascimento” dos Maias e Astecas, entre outros, é uma etapa do Caminho Xamânico.

Ainda bem que eu primeiro fiz os Rituais pra depois ler/pesquisar os assuntos, assim não ter dúvidas em minha Consciência de ter sido induzido ou influenciado – e isso posso testemunhar! Porém, todo o Processo é tão diversificado e real, que as leituras e conhecimentos anteriores aos rituais só auxiliam e cada um tem que trilhar por si próprio – as experiências alheias servem de parâmetros. O Caminho vai se abrindo se você se propõe a percorrê-lo e todos são contemplados com o Melhor, sempre.

O Pai Celestial não nos decepciona!

Foi um Ritual muito forte e, de novo, gostei e reservei vaga para o próximo.